Entrevista com Charly Coombes: música brasileira, carreira e novo disco

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O multi-instrumentista, cantor e compositor Charly Coombes, radicado no Brasil desde 2014, foi tecladista do 22-20s por mais de uma década e acompanhou a banda do irmão em algumas turnês antes de arriscar na carreira solo. Estreou com o disco folk No Shelter (2013), e a partir daí começou a experimentar sonoridades novas. Este ano lançou terceiro álbum intitulado Run. Conversamos com o músico, sobre suas experiências no Brasil, sobre a carreira e também do novo disco.

 

Seu primeiro álbum solo “No Shelter” foi lançado em 2013. De lá pra cá o que mudou sonoramente no seu trabalho?

Eu escrevo música há anos – desde quando eu tinha 12 anos de idade. Mas nunca me senti pronto para fazer um álbum solo até No Shelter. Depois de fazer esse registro, algo em mim mudou. Eu cresci rapidamente como compositor, ganhando muita experiência com cada registro – não apenas em termos de composição, mas também de produção. Eu produzi dois dos meus álbuns agora, e comecei a produzir outras bandas e artistas. Escrever músicas que me deixam orgulhoso e confiante é apenas uma peça do quebra-cabeça. Escrever é muito difícil. Escrever músicas que falam uma com as outras como um trabalho coerente é extremamente difícil. Além disso, manter a produção fresca, moderna e bem equilibrada é a peça final do quebra-cabeça. À medida que cada álbum passa – explorando sons, melodias, produção e instrumentos – esse processo está se tornando cada vez mais natural para mim e eu sinto que tenho a confiança para criar algo com o qual estou realmente orgulhoso.

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Por viver algum tempo no Brasil, você deve conhecer alguns artistas brasileiros. Que tipo de música e quais artistas brasileiros você costuma consumir?

Adoro explorar a música brasileira. Viajei muito com várias bandas e sempre tentei abraçar a música e a cultura desses países. Mas para mim, a música brasileira é uma das mais fortes e mais diversas que eu ouvi. Há uma influência clara dos artistas britânicos e americanos, mas a identidade brasileira é sempre muito forte. Minha esposa é brasileira e me apresentou a muitos artistas de todas as décadas – Chico Buarque, Gil, Caetano, Mutantes, Titãs, IRA! – Sou um grande fã de Tom Jobim e também de Jorge Ben. Mas foi tão emocionante explorar a música que vem da cena indie no Brasil agora. Bandas incríveis como O Terno, Mahmundi e meus bons amigos do Cachorro Grande, que ainda fazem álbuns fantásticos! Eu amei uma banda de São Paulo chamada Lloyd – ótimas garotas – e foi um prazer para mim produzir seu primeiro álbum.

 

A cultura brasileira te influenciou de alguma forma?

A cultura no Brasil é tão forte, é difícil não ser influenciado! Mas é principalmente com música. Estudei muito os ritmos líricos de Chico Buarque – muito inspirador. E as sequências e melodias de acordes de Jobim me levam de volta às minhas fascinações com Sinatra e composições mais complexas como Brian Wilson e The Beach Boys. Com o meu novo álbum Run, eu estava ouvindo muito as ondas da música dos anos 80 que surgiram do Rio, do Sul e de São Paulo. Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Barao Vermelho e Titãs ajudaram a me guiar em um álbum fortemente influenciado pela década de 1980 e minha infância. Mas uma das coisas mais interessantes é trabalhar com músicos brasileiros. Tanto talento, mas cresceu a partir de um contexto cultural completamente diferente. Estou aprendendo, não apenas com música, mas também com filmes, televisão, arte, história brasileira. Está sendo fascinante!

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“Black Moon”, completa dois anos. Qual a importância deste álbum pra você?

Black Moon é um registro extremamente importante para mim. Não só o conceito do álbum segue assuntos que eu sou muito apaixonado – viagens espaciais, NASA e ficção científica – mas também foi a primeira vez que me senti liberado para produzir um álbum sem limitações. Antes do meu álbum de estreia, eu estava viajando com a minha banda Charly Coombes & the New Breed. Naquela época, senti que era muito importante escrever canções que poderíamos tocar ao vivo. Tudo estava escrito com shows em minha mente – como as músicas funcionariam no palco. Com Black Moon, abandonei completamente esses princípios para explorar um novo mundo de escrita e produção, sem limitações. O resultado final foi algo muito especial para mim que sempre me orgulharei. Começou uma nova fase na forma como eu trabalho.

 

Seu novo disco “Run” carrega uma certa crítica ao mundo atual. Pra você qual a importância da música neste momento de conservadorismo em que estamos vivendo?

Sim, é um mundo difícil no momento, certo? Isso me lembra a turbulência da década de 1980. O mundo em recessão, crise financeira, conservadorismo… Mas nestes tempos, a música e a cultura sempre fornecerão a trilha sonora. Eu não gostaria de ser muito político com as minhas letras ou conceitos, mas às vezes vem à superfície. Houve muitos comentários sociais em Run. Falei sobre os medos que todos nós temos nos momentos mais sombrios, mas também a onda de conservadorismo que começou a surgir em 2016. De volta à Inglaterra, as coisas eram muito instáveis. A ascensão insana e confusa de Trump ao poder. E também o abuso de democracia e corrupção que o Brasil experimentou e ainda está lutando para superar. Esses momentos são realmente difíceis para os músicos – em uma crise e recessão, estamos no fundo da pilha! Mas é mais importante, do que nunca fornecer essa trilha sonora – dar uma saída para as pessoas, um raio de esperança… ou apenas para que cantem do fundo do coração! Tenho orgulho de fazer parte disso.

 

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